Ordem e Progresso

março 17, 2009 por Luiz Rocha

Vai, orgulhosa, querida, / Mas aceita esta lição: /

No câmbio incerto da vida, / A libra sempre é o coração, /

O amor vem por princípio, a ordem por base, / O progresso é que deve vir por fim, /

Desprezaste esta lei de Augusto Comte, / E foste ser feliz longe de mim.


Este trecho do conhecido samba de Noel Rosa e Orestes Barbosa de 1933, demonstra a
presença da filosofia positivista na cultura popular do Brasil. Augusto Comte, o autor do positivismo, resumiu sua doutrina como: "O Amor por princípio, a Ordem por base e o Progresso por fim".

A tentativa mais efetiva de colocar em prática a doutrina positivista, uma ideologia tipicamente francesa, foi realizada no Brasil. Esta corrente de pensamento assumiu relevância a partir da proclamação da República, em 1889, quando os discípulos de Comte inseriram o lema “Ordem e Progresso “ na nova bandeira do Brasil tornando o país um dos raros no mundo a possuir uma "carta de princípios" em sua bandeira. "Ordem é a precondição para todo progresso" diz Comte em seu "Cours de Philosophie Positive".

A época da proclamação da República pode ser assinalada como de conciliação entre as constantes de ordem vindas da monarquia e os imperativos de progresso que a República se empenhou em desenvolver. O positivismo talvez tenha contribuído para esta característica tão brasileira para resolver problemas, de contornar obstáculos e superar crises, sem substituições radicais e violentas do velho pelo novo. Com esta abordagem, por exemplo, o Brasil estabeleceu a maior parte de suas fronteiras por arbitragem ao invés de guerras.

É interessante observar que o lema inserido na bandeira se aplica muito bem ao gerenciamento de projetos onde existe sempre um equilíbrio instável entre o caos, a ordem, a improvisação e o progresso. Em todo projeto, no seu início, reina o caos e procura-se através do planejamento o estabelecimento da ordem. A ordenação cria a base para o progresso que acaba gerando novamente o caos que requererá um novo choque de ordem através do monitoramento e controle. E, com esse processo chega-se ao uau ! , o final de um projeto bem sucedido.

Grandes conquistas são ganhas passo a passo como é o caso de Yelena Isisbayeva, medalha de ouro nas olimpíadas de 2004 e 2008 e, atualmente, a melhor saltadora de vara feminina da história. Para chegar onde chegou Yelena teve muita disciplina e perseverança (ordem) para evoluir e romper os limites do possível (progresso). E, a cada conquista a celebração e o uau ! tão merecidos.

Todo gerente de projetos é um arauto da ordem e do progresso e quem deve estabelecer um correto equilíbrio entre estes dois pólos. Um processo semelhante ao seguido por Yelena Isisbayeva, de evolução fundamentada em muita disciplina.

Enquanto a ordem é o amálgama dos processos e metodologias que sustentam um projeto, o progresso traz a mudança e a transformação. Se o gerente de projetos tender só para o lado da ordem acabará como um mero seguidor de padrões e procedimentos e estabelecerá um alto grau de burocracia que poderá afetar a produtividade e motivação da equipe. Se tender só para o lado do progresso imprimirá um momentum sem  sustentação para ordenação da mudança e ampliará os riscos do projeto.

Entre estes dois extremos de rigidez e permissividade está o equilíbrio desejado que deve ser estabelecido através da experiência e bom-senso para se alcançar o sucesso de um projeto.

Publicado em: Gerenciamento de projetos