No começo do século XX o Pólo Sul era o último ponto do planeta onde o homem ainda não havia colocado os pés.O ano era 1914 e os ingleses recentemente haviam perdido uma corrida contra os noruegueses para ver quem chegava primeiro ao ponto mais extremo do Pólo Sul. Restava, porém, o desafio de conseguir atravessar de um extremo a outro o continente Antárctico.
Ernest Shackleton, cujo lema da família era Fortitudine Vincimus (pela resistência nós conquistamos), já havia participado de duas expedições ao Pólo Sul. Em 1902, na expedição do capitão Robert Scott, chegou a 695 km do Pólo. Seis anos depois, comandando sua própria expedição, retornou quando estava a 146 km do Pólo. Conforme dito por Shackleton, tudo começou com um sonho, " revelando que algum día eu iria à região do gelo e da neve e que continuaria sem descanso até que chegasse a um dos pólos da Terra, ao final do eixo sobre o qual gira esta grande Esfera ".
Schackleton realizou a terceira expedição ao Pólo Sul a bordo do veleiro Endurance. (resistência) que ganhou este nome em função do moto da família. Comandava uma equipe de 27 homens com o objetivo de realizar a última grande aventura na Terra: a travessia a pé de 2.900 km do continente Antártico. Partiu com sua equipe da Inglaterra em 1 de agosto de 1914, ao início a Primeira Grande Guerra.
A expedição, entretanto, falhou em alcançar quase todos os seus objetivos. Apesar disso, Schackleton tornou-se um modelo de liderança e , em particular, um mestre em liderança em meio a crises. A liderança inspiradora de Schackleton obteve uma grande vitória da derrota dado que todos os seus homens sobreviveram. Sua volta à Inglaterra passou quase despercebida, em meio à carnificina da primeira guerra mundial.
A expedição de Schackleton foi registrada por Frank Hurley, o fotógrafo da expedição. As centenas de imagens mesclam um sentido documental e de grande beleza e registram a saga da expedição. Inicialmente o Endurance foi tragado pelo gelo e os homens da expedição passaram seis meses acampados sobre o mar congelado. Quando começou o degelo navegaram nos escaleres até as ilhas Elefante. Lá, Schackleton deixou 22 de seus homens e empreendeu, a bordo de um dos escaleres, com 5 homens, uma travessia marítima de 16 dias e 1100 km até uma parte desabitada das ilhas Geórgia do Sul. Devido aos rigores do clima, as condições do mar e a precariedade da embarcação, essa travessia é considerada como um dos maiores feitos náuticos de todos os tempos.
Chegando às ilhas, Schackleton e mais dois tripulantes partiram para alcançar as estações baleeiras do lado norte da ilha deixando 3 companheiros naquele ponto. Com apenas 17
metros de corda, botas velhas com travas feitas com parafusos tirados do bote de madeira, e roupas que mais pareciam farrapos caminharam 36 horas sobre geleiras e montanhas para chegar à base baleeira de Stromnes. Iniciou, então, o resgate dos 25 homens, que só foi terminar no verão de 1916. Todos os tripulantes do Endurance sobreviveram. As vitimas foram os cães que tiverem que ser sacrificados e comidos para que não concorressem com a tripulação aos viveres disponíveis. A outra vítima foi um gato, Mrs. Chippy, que era mascote do navio.
Fazendo juz ao moto da família, Schackleton organizou em 1921 uma outra expedição ao Polo Sul. Entretanto, o comandante morreu de ataque do coração quando a expedição estava a caminho das ilhas da Geórgia do Sul. A pedido de sua esposa foi enterrado no cemitério Grytviken naquelas ilhas.
A conquista do Pólo Sul só foi alcançada em 1958, 40 anos após a expedição Endurance.

Shackleton deixou um legado difícil de ser esquecido. Ficou famoso tanto por suas expedições polares, como pela sua maneira peculiar de lidar com seus comandados. Apelidado de “Boss” por seus companheiros, Shackleton tinha como prioridade a segurança e o bem estar de seus homens, o que gerava uma fidelidade e adoração jamais alcançadas por seus pares.
Os problemas enfrentados por Schackleton são idênticos aos do mundo atual: fazer com que sua equipe trabalhe em prol de um objetivo comum; organizar iniciativas em um ambiente caótico; trabalhar com recursos limitados; motivar a equipe. Sua história é, em essência, inspiração para libertar a força que os indivíduos nem imaginam possuir para atingir resultados que parecem um milagre.
A principal lição aprendida da expedição Schackleton é de que a liderança faz toda a diferença. Líderes verdadeiros são capazes de criar uma sinergia na equipe que pode significar a diferença entre sucesso e fracasso em ambientes extremos. Em condições de perigo de vida, a diferença entre vida e morte. Em ambientes empresariais, a diferença entre a prosperidade e a morte da organização.
Os anos de 1913 e 1914, abrigaram as duas últimas expedições à moda antiga às regiões polares feitas em barcos de madeira, e antes da era do rádio e dos aviões : o Endurance foi para o sul e Karluk para o norte. As duas embarcações encontraram o mesmo destino ficando aprisionadas pelo gelo. Cada uma das tripulações partiu para lutar pela sobrevivência e as duas histórias falam de jornadas de 1100 a 1300 quilômetros em busca de resgate. Mas os resultados foram totalmente diferentes como consequência do modo como os dois líderes lidaram com os obstáculos e desafios. A tripulação do Karluk transformou-se em um bando de indivíduos onde individualismo, trapaças e mentiras se tornaram lugar comum. A desintegração do time resultou na morte de 11 pessoas.
A grande diferença das duas expedições foi o estilo de liderança adotado. As lições de liderança em condições extremas possuem total relevância para o mundo empresarial e apresentam as seguintes características:
1. Estabeleça uma visão e ganhos rápidos - Nunca perca de vista seu objetivo final e foque sua energia nos objetivos de curto prazo;
2. Dê o exemplo - Como líder mantenha a coerência entre o discurso e a prática. Dê pessoalmente o exemplo com comportamentos e atitudes coerentes;
3. Otimismo com realidade - Dissemine otimismo e auto-confiança mas seja realista;
4. Cuide-se, mantenha a stamina e não sinta remorsos;
5. Mensagem para o time - Reforce constantemente que “ somos um time. Viveremos e morreremos juntos “
6. Os valores do time - Minimize as diferenças individuais e insista na cortesia e respeito mútuo.
7. Administre os conflitos - Lide com a raiva em pequenas doses, engajando os dissidents e evitando disputas desnecessárias de poder;
8. Celebrar - Encontre o que celebrar e sobre o que dar gargalhadas;
9. Risco - Esteja pronto a assumer grandes riscos;
10. Criatividade persistente - Não desista jamais. Sempre haverá outra alternative.
1. IMAX Shackleton's Antarctic Adventure ("A story of ordinary men, under extraordinary circumstances)
2. Endurance: a lendária expedição de Shackleton à Antártida, Companhia das Letras
3. Leading at the edge - leadership lessons from the extraordinary saga of Shackleton's Antarctic Expedition, de Dennis Perkins
4. Karluk, Jennifer Niven, Editora Alegro